Entrevista com o Professor Arnaldo Martínez Mercado durante visita ao LACCOS
No dia 25 de março, o LACCOS teve o prazer de receber o Professor Arnaldo Martínez Mercado, pesquisador da Universidad Nacional del Este, no Paraguai. Pedagogo com especialização em Sociologia e mestre em Ciências Sociais com ênfase em Sociologia, o Professor Arnaldo atua como professor-pesquisador do Núcleo de Sociología de la Salud, vinculado à Facultad de Ciencias de la Salud de sua instituição.
Sua pesquisa atual, intitulada Representaciones sociales de la vacunación en profesionales de la salud, del Alto Paraná y Canindeyú, Paraguay, nasce de uma preocupação concreta: o impacto que o debate público em torno das vacinas contra a COVID-19 teve sobre a cobertura vacinal no Paraguai.
LACCOS: Professor Arnaldo, sua pesquisa atual investiga as representações sociais da vacinação entre profissionais de saúde no Paraguai. O que motivou essa investigação e por que esse tema lhe parece tão relevante neste momento?
Professor Arnaldo: O Programa Ampliado de Imunizações (PAI), do Ministério da Saúde Pública e Bem-Estar Social do Paraguai, vinha se consolidando como uma das políticas públicas de maior reconhecimento por parte da cidadania, graças às suas conquistas na proteção da população contra doenças preveníveis. A cobertura vacinal ia demonstrando seus efeitos positivos, e o país havia alcançado certificações que atestavam os esforços empreendidos.
Mas chegou a pandemia de COVID-19 e surgiram novas vacinas em um tempo relativamente curto. Esse fato suscitou discussões públicas por parte de membros da comunidade de profissionais das ciências da saúde, alguns de cujos representantes se mostraram abertamente contrários à vacinação. A discussão na esfera pública mostrou imediatamente seus efeitos na redução da cobertura vacinal, afetando negativamente conquistas acumuladas mediante esforços imensos.
Para analisar esse fenômeno, especialmente no universo dos profissionais de saúde, foi proposto o estudo. A teoria estrutural das representações sociais oferece uma perspectiva privilegiada para tentar compreender o posicionamento dos agentes promotores de saúde de dois departamentos geográficos do Paraguai nos quais desenvolvo minhas atividades acadêmicas. Queríamos saber, por exemplo, se havia se operado ou estava se operando uma mudança representacional da vacinação. Estudar as representações sociais da vacinação dos profissionais das ciências da saúde é de primordial importância: esses profissionais de “primeira linha” interagem com os pacientes, as famílias e seus membros, e têm um papel fundamental na construção da realidade social no âmbito da saúde.
LACCOS: É um prazer tê-lo conosco neste Laboratório, Professor. A partir de sua experiência como pesquisador latino-americano, como o senhor avalia a importância do fortalecimento das relações acadêmicas entre pesquisadores da América do Sul? Quais os ganhos que essa aproximação pode trazer para a produção científica da região?
Professor Arnaldo: Considero que a ampliação e o fortalecimento das relações entre os pesquisadores da América do Sul têm um caráter essencial. Eu diria que é simplesmente “vital”. Os pesquisadores desta parte do mundo vivemos em contextos muito similares, e nossas sociedades enfrentam problemas compartilhados, que têm conotações, exigências e pressões distintas daquelas que experimentam os pesquisadores de outras zonas geográficas do mundo. Uma aproximação entre pesquisadores latino-americanos nos ofereceria a oportunidade de um melhor cotejo de ideias e uma depuração mais crítica das propostas, para que elas respondam validamente aos problemas de nossas realidades locais.
Mario Bunge dizia que “a América Latina não sairá de seu atraso enquanto a aventura bélica, política e esportiva tiver maior preeminência do que essa estupenda aventura intelectual que é a ciência”. Mas a construção desse reconhecimento do imenso valor da ciência, por parte de nossas sociedades, requer um reconhecimento prévio e uma comunhão de esforços e contribuições compartilhadas entre os próprios pesquisadores. Quanto mais nos unirmos e mais colaborarmos, melhor contribuiremos.
LACCOS: Para encerrar, deixamos este espaço aberto para que o senhor compartilhe as considerações que julgar pertinentes.
Professor Arnaldo: Expresso minha sincera gratidão à Professora Dra. Andréa Barbará Bousfield que, com toda generosidade, dedicou parte de seu tempo para oferecer parecer especializado ao projeto de pesquisa que venho liderando como pesquisador principal, com financiamento do Consejo Nacional de Ciencia y Tecnología do Paraguai. A Professora Bousfield me abriu a possibilidade de conhecer melhor o LACCOS e me facilitou o acesso pessoal a alguns de seus mais prestigiosos membros, o que considero um apoio inestimável. Nesse sentido, agradeço especialmente à Professora Dra. Andréia Isabel Giacomozzi e ao doutorando Anderson da Silveira pela sua disponibilidade e pelos seus valiosos aportes para o desenvolvimento do trabalho em curso.
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